Desde que iniciei meus estudos sobre violência sexual contra meninos venho acompanhando as campanhas publicitárias sobre violência sexual contra crianças e adolescentes. É comum vermos cartazes e folders sobre o assunto circulando pelas cidades. Se analisarmos estes materiais, veremos que há uma tendência em retratar a vítima como sendo uma criança ou uma adolescente do sexo feminino. Vejam só:
Campanha Fale Por Ela - Prefeitura de Belo Horizonte
Campanha do Estado da Bahia
Campanha da cidade de Mogi Guaçu - São Paulo
Campanha da cidade de Santa Isabel do Pará - Pará
Estes são apenas alguns exemplos. É claro que há campanhas nas quais meninos são retratados como vítimas. Porém, estas são menos frequentes. Faça uma busca simples no Google Images utilizando as palavras "abuso sexual" e "campanha" e você mesmo comprovará o que estou relatando.
Em minha opinião, as campanhas publicitárias sobre violência sexual contra crianças e adolescentes deveriam abordar os dois sexos como vítimas ou, então, elaboradas campanhas concomitantes, específicas para cada sexo, levando-se em consideração as peculiaridades de acordo com o sexo das vítimas.
Recentemente me deparei com um site norte americano (TRISTAN´S MOON) que aborda a violência sexual contra meninos e homens. Neste site, que ainda estou explorando, há vários conteúdos interessantes. Dentre eles, compartilho aqui um que me chamou atenção. Trata-se de um texto sobre violência sexual contra meninos e homens em contextos de conflito e guerra que aborda, dentre outras coisas, os conteúdos que devem ser abordados em campanhas publicitárias específicas para vítimas masculinas de violência sexual. O texto original está em inglês e eu mesmo traduzi.
Temas para campanhas publicitárias de conscientização
Campanhas publicitárias de conscientização devem focar as seguintes mensagens:
- Você não está sozinho. Sobreviventes frequentemente sentem-se isolados devido ao silêncio acerca da violência sexual masculina. Campanhas publicitárias devem abordar a violência sexual contra meninos/homens não somente em nível nacional, mas em nível internacional, com o objetivo de auxiliar sobreviventes a entender que a violência sexual contra meninos/homens ocorre em todo o mundo, durante períodos de conflito e de paz.
- Você não foi culpado. Sobreviventes precisam ser tranquilizados de que eles não provocaram a violência sexual por conta de sua aparência, estatura, ou qualquer outro atributo pessoal; pelo contrário, eles foram vítimas de uma brutalidade, seja individual, organizacional ou política.
- Você não precisa questionar sua orientação sexual. Sobreviventes frequentemente possuem dúvidas e sentem-se envergonhados quanto a terem experienciado excitação física involuntária durante a violência sexual. As campanhas publicitárias devem deixar claro que a excitação física involuntária é comum durante a violência sexual e que não tem relação com a orientação sexual.
- Ter passado pela violência sexual não o torna "menos homem". Campanhas publicitárias devem fornecer mensagens que desvinculem masculinidade de agressividade, invulnerabilidade e emocionalidade restrita (características socialmente aceitas como sendo de homens). As campanhas devem fornecer imagens nas quais o senso de masculinidade está relacionado a ser um bom marido, pai, filho, irmão, amigo e um membro construtivo na comunidade.
- Meninos/Homens que foram vítimas de violência sexual necessitam de suporte familiar e comunitário. Campanhas publicitárias devem visar extinguir percepções errôneas comuns acerca da violência sexual contra meninos/homens e promover a empatia.
Nota: É muito importante que as mensagens das campanhas sejam cuidadosamente produzidas para evitar o reforço acidental de concepções tradicionais sobre a dominância masculina e a discriminação contra mulheres e homossexuais.
Acesse o texto completo (em inglês) em http://tristansmoon.org/Sexual_Violence.html
Estas dicas fizeram aumentar meu desejo de ver campanhas direcionadas a meninos e homens sobreviventes. Quem sabe uma parceria entre um psicólogo (eu!), um(a) publicitário(a) interessado(a) no assunto e muita boa vontade possa render algum material para ser enviado aos órgãos de proteção à criança e ao adolescente e, se aprovado, distribuído em nosso país. Alguém topa?



