Há aproximadamente um mês, a postagem que foi feita nesse blog tinha o
mesmo título (acesse a postagem aqui).
Nessa postagem, 20 afirmações sobre a violência sexual contra meninos foram
listadas. Foi solicitado que os leitores avaliassem essas afirmações (i.e., se
eram falsas ou verdadeiras). A partir de hoje, cada uma dessas afirmações será
explicada. Para iniciar, serão abordadas as duas primeiras afirmações:
1. Se o menino aceitou presentes como balas,
brinquedos ou dinheiro da pessoa que cometeu a violência sexual, então esse
menino realmente quis que isso acontecesse.
A dinâmica da
violência sexual, ou seja, o modo como ela ocorre indica a junção de vários
fatores e a presença de fases distintas (para saber mais sobre isso, leia a
postagem na qual a dinâmica é abordada brevemente
aqui).
Quando os agressores se aproximam de vítimas em potencial, eles buscam
conquistar ainda mais a confiança da criança ou adolescente. Eles podem
utilizar presentes e dinheiro para conquistar a confiança e afeto da criança ou
adolescente. Isso também pode ocorrer quando as vítimas percebem que algo
errado está acontecendo e emitem sinais de que podem revelar a violência sexual
para alguém. Com o objetivo de manter o segredo acerca da ocorrência da
violência sexual, os agressores podem fazer barganhas com as vítimas, além de
ameaças. Mesmo que as vítimas aceitem essas barganhas, o(a) responsável pela
violência sexual é o(a) agressor(a), pois esse possui conhecimento sobre o que
está fazendo, enquanto a criança ou o(a) adolescente ainda está em
desenvolvimento e não é totalmente capaz de avaliar a situação.
Um exemplo do uso de
barganhas pode ser visto no artigo publicado por Almeida, Penso e Costa (2009).
Nesse artigo é descrito um estudo de caso de um menino de 13 anos vítima de
violência sexual. Acesse o artigo aqui.
2. Se o menino teve uma ereção ou ejaculação durante a
violência sexual, então esse menino estava mais disposto a participar do que se
não tivesse essa ereção.
O corpo humano é
repleto de terminações nervosas que, quando estimuladas, são ativadas e emitem
repostas fisiológicas. Mesmo durante a violência sexual, a estimulação de áreas
erógenas pode resultar em excitação corporal. Nos meninos vítimas de violência
sexual, tal excitação é explícita, pois ocorre a ereção do pênis e a
ejaculação. Isso não quer dizer que as vítimas gostaram do que aconteceu ou que
desejaram o ato sexual. Pode-se dizer que a ereção e a ejaculação foram
acidentais, ou seja, ocorreram sem que o menino desejasse. Devido a isso,
costuma-se dizer que qualquer prazer que as vítimas possam sentir durante a
violência sexual é acidental, enquanto que o prazer obtido pelos agressores é
intencional. Isso porque a responsabilidade da ocorrência do ato sexual é
totalmente dos agressores. Profissionais que trabalham com crianças e
adolescentes vítimas de violência sexual devem estar atentos a essas
informações, uma vez que as vítimas tendem a se perceber ainda mais culpadas
pela ocorrência da violência sexual quando experienciam alguma excitação ou
prazer. Os agressores tendem a utilizar esse fato como uma "prova" de
que a vítima desejou a violência sexual, podendo, inclusive, utilizar isso como
uma chantagem para a manutenção do segredo da violência sexual. É
importante que os profissionais esclareçam para a vítima que a ocorrência de
excitação e prazer foi involuntária, buscando flexibilizar pensamentos
distorcidos em relação à culpa e vergonha.