Sempre inicio os cursos, palestras e aulas sobre o tema da violência sexual (VS) recapitulando seu conceito. Afinal de contas, o que é VS? Não raro, me deparo com estudantes ou profissionais que não sabem ao certo o que é VS. Isto ocorre devido a vários fatores - existência de vários conceitos, desconhecimento, formação, etc. Gosto muito do que Mic Hunter, autor do livro "Abused Boys: The Neglect Victims of Sexual Abuse", menciona a respeito da importância de sabermos o conceito de VS - o modo como conceituamos algo direciona nossa atuação em relação ao fenômeno conceituado. Sendo assim, se partirmos de uma definição inadequada, as chances de nossa atuação ser igualmente inadequada aumenta consideravelmente.
Embora existam vários conceitos de VS, a mais difundida mundialmente, e a que utilizamos no CEP-Rua, é a da World Health Organization (WHO) e International Society for Prevention of Child Abuse and Neglect (ISPCAN; 2006 ). Esta indica que a VS consiste no envolvimento de uma criança ou
adolescente em atividade sexual não compreendida totalmente, sendo estes
incapazes de dar consentimento, ou para a qual não estão preparados devido ao
seu estágio desenvolvimental. Acrescenta-se o fato de que a VS viola leis ou
tabus da sociedade.
No Brasil, Ministério da Saúde (2002) conceitua a VS de forma semelhante à WHO e ISPCAN, detalhando as práticas
consideradas VS. É definida, então, como todo e qualquer ato ou jogo sexual,
seja ele em uma relação heterossexual ou homossexual, no qual os perpetradores
estão em estágio de desenvolvimento psicossexual mais adiantado que a criança
ou o adolescente, sendo estes indivíduos abaixo de 18 anos. Tal
prática tem por finalidade estimular sexualmente as vítimas ou utilizá-las para
obtenção de satisfação sexual dos perpetradores. Evidencia-se por meio de
práticas eróticas e sexuais impostas às crianças ou aos adolescentes pela
violência física, ameaças ou indução de sua vontade. A VS pode variar desde
atos nos quais não há o contato sexual (voyerismo, exibicionismo,
produção de fotos), até diferentes tipos de ações que incluem contato sexual
com ou sem penetração. Inclui, ainda, situações de exploração sexual visando a
lucros, tais como, a exploração sexual e a exposição à pornografia. A exploração sexual (veja bem, não é correto chamar de prostituição infantil, pois não se trata de uma opção da criança ou adolescente) é um tipo de VS no qual há um aspecto mercadológico envolvido. Embora não seja adequado adequado dizer que crianças e adolescentes vítimas de exploração sexual recebam pagamento, sempre há uma "moeda de troca" envolvida, geralmente, bens primários para a sobrevivência desta criança ou adolescente ou de sua família. Dada a complexidade da exploração sexual, este tema será abordado, futuramente, em um tópico somente para o assunto.
A figura abaixo ilustra o conceito de VS e detalha suas principais formas:
Em relação à VS contra meninos, um estudo no qual 166 publicações sobre VS
contra meninos norte-americanos, menores de 19 anos, foram analisadas, os
critérios mais utilizados para definir VS foram: diferença de idade entre agressores e vítimas,
presença de coerção, reação da vítima, envolvimento de uma figura de autoridade,
forma de contato físico e ocorrência de penetração (Holmes & Slap, 1998). A
variabilidade de definições pode ser compreendida pelas diversas formas que a
VS pode apresentar. Interações com penetração, manipulação de genitais, sexo
oral (Holmes & Slap, 1998; Hunter, 1990; Kristensen, 1996), exibicionismo
(Holmes & Slap, 1998; Hunter, 1990), assédio verbal (Hunter, 1990) e
exibição de revistas pornográficas (Hunter, 1990; Kristensen, 1996) são descritas
pela literatura como formas comuns de VS contra meninos.
Referências
Holmes, W. C. & Slap G.
B. (1998). Sexual abuse of boys: Definition,
prevalence, correlates, sequelae and management. Journal of American Medical
Association, 280, 1855-1862. doi: 10.1001/jama.280.21.1855
Hunter,
M. (1990). Abused boys: The neglected
victims of sexual abuse. EUA: Fawcett Books.
Kristensen, C. H. (1996). Abuso sexual em meninos (Dissertação de mestrado).
Recuperado de
http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/1432/000177073.pdf?sequence=1.
Ministério
da Saúde (2002). Notificação de maus-tratos contra crianças e adolescentes
pelos profissionais de saúde: Um passo a mais na cidadania em saúde.
Brasília: Secretaria de Assistência à Saúde. Recuperado de
http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/notificacao_maustratos_criancas_adolescentes.pdf
World Health Organization &
International Society for Prevention of Child Abuse and Neglect (2006). Preventing child maltreatment: A guide to
taking action and generating evidence. Suíça: World Health Organization. Recuperado
de http://whqlibdoc.who.int/publications/2006/9241594365_eng.pdf

Bem importante essa conceituação! Apenas uma sugestão: Não seria melhor, em vez de usar uma abreviatura, escrever "violência sexual" por extenso? Assim as pessoas se acostumam com o termo. Senão fica parecendo algo distante: quando está abreviado, eu leio VS, não violência sexual. Beijo grande!
ResponderExcluirAiri, não tinha pensado nisto! Acho válido, sim! A colocação da abreviatura foi um recurso para diminuir o tamanho do texto. Das próximas vezes, colocarei por extenso. Beijo grande pra ti tbém!
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